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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

IDEIAS AGREGADORAS

Por mais distintas que algumas ideias possam ser, ainda podemos utilizá-las na construção do nosso conhecimento.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

VITOR TEIXEIRA: "MEU TRABALHO NÃO É RESPOSTA DE NADA, É PERGUNTA"

Novo colaborador do Brasil de Fato, o cartunista fala sobre a conjuntura política atual 

Júlia Dolce e Norma Odara
Redação, 05 de Maio de 2016 às 12:05 

Charge / Vitor Teixeira

O cartunista Vitor Teixeira iniciou a vida profissional desenhando estampas para a indústria têxtil, após se formar em design gráfico. Com as Jornadas de Junho em 2013, cansado de ter o trabalho subutilizado e com um desejo de publicar trabalhos autorais, Vitor começou a divulgar as primeiras charges e logo ganhou notoriedade na internet.

Com pouco contato com os movimentos populares e tendo estudado em escola particular, o cartunista assume: “Eu era um coxinha. A verdade é essa”. Ele já vinha cultivando uma simpatia pela política de esquerda desde 2011, mas foi após o sucesso da página no Facebook que ele entrou em contato com as organizações populares para oferecer o trabalho.

“Nesse processo todo eu fui me aperfeiçoando, me politizando, compreendendo cada luta e suas especificidades, lendo muita história para me aprofundar mais. É papel de todo comunicador e artista que tem um trabalho opinativo se manter informado”, afirmou o cartunista, em entrevista para o Brasil de Fato.

A partir desta quinta-feira (5), Vitor inicia uma parceria com o Brasil de Fato, criando charges semanais exclusivas. “Conversando com cartunistas mais velhos eles dizem que antigamente tinham que bater na porta dos jornais com o portfólio debaixo do braço. Hoje, o cartunista vai para a internet, começa a publicar e é chamado pelos veículos. É bem legal participar desse processo, que tem sido um grande marco para várias pessoas”, destacou.


Leia a entrevista na íntegra:

É comum entre os cartunistas, mesmo entre os que se reconhecem como de esquerda, reproduzir estereótipos para fazer humor. Você trabalha com uma linha politicamente correta que se opõe a isso. Acredita que é uma tendência?

Na verdade, eu tenho feito um esforço muito grande para subverter um pouco essa lógica. Eu já fiz um grande esforço para me aproximar dos movimentos, mas vejo, com uma grande frequência, eu me podando para agradar. Isso é problemático para quem produz esse tipo de material. Também tem uma coisa de diálogo e conflito com o próprio público, de alguma maneira, você tem que criar contradições. Eu cheguei em um ponto onde eu olhava a minha página e todos os comentários concordavam, acho que, no mínimo, se deve desconfiar disso. Acho que o conflito e a divergência são positivos. É complicado, é uma linha tênue encontrar a veia certa para fazer a metáfora criando contradição e conflito, sem ofensa e sem desrespeitar, mas na rede isso fica muito pulverizado.


Além das pautas das charges, qual você acredita que é o seu papel de cartunista com as minorias sociais?

Eu tenho lido muito o Paulo Freire, acho que é imprescindível comprender o que é educação popular. Ele fala em um determinado ponto, em um livro que terminei de ler, que o papel de um intelectual, e eu coloco dentro de intelectual todo acadêmico e todo comunicador, é você pegar o acesso que você teve e de alguma maneira distribuir esse privilégio de acesso à informação formal, e distribuir isso da maneira mais solidária e popular que você puder.

Então eu tento despertar esse viés no meu trabalho, de dividir e tentar levar uma informação que para mim é tão óbvia, tão instintiva, para pessoas carentes de maneira geral. Não requer recurso nenhum, é muito simples e muito gratificante. E eu não levo isso como alguém importante que leva a “sabedoria necessária”, pelo contrário, eu saio entendendo e aprendendo muito mais. É fantástico e inspirador, tenho muita vontade de estimular mais isso. Vou ter uma oficina no Sesc agora, com mais calma. A experiência que eu tive foram nas ocupações das escolas estaduais na época da reorganização do Alckmin, e foram sensacionais.

Fiquei impressionado! Os moleques pareciam que liam Bakunin de madrugada. Eles tinham uma autogestão genial, tudo organizado, eu chegava e tinha gente consertando o encanamento, tudo programado, com segurança. Foi uma das coisas mais lindas que eu já vi na esquerda, no campo popular, pelo menos. Esses moleques são geniais e eu dei minha contribuição, e dessa contribuição aprendi a fazer oficinas e consegui o contato com o Sesc. Eles que me proporcionaram isso. Não sou educador mas tenho me esforçardo para dividir isso. Acho que isso é papel de quem tem consciência no mundo em que a gente vive. Não vou dar esse tipo de formação no Dante Alighiere, o que isso teria de transformador? Vou dar formação nas periferias. Eu fiz uma oficina sensacional em Altamira, no Pará, para ribeirinhos, para indígenas. Foi uma troca de formação sem precedentes. Eu saí alimentado e entreguei algo para eles desenvolverem. Eu faço com muito gosto.


Você teve charges que foram criticadas pela própria esquerda, pelo movimento negro e pelo movimento feminista. Como foi lidar com essas críticas e como é falar de temas que, de certa forma, não te pertencem?


Foi muito interessante o que aconteceu nesse período. Foram três desenhos que eu fiz. Na verdade, começou com o desenho da capa da Elle, e sobre esse desenho quase não houve críticas, parece que todo mundo se segurou. E no segundo desenho, que foi o da fábrica com a mulher montando a boneca, vieram até figuras notáveis que eu acompanho e sigo.

Achei muito curioso e até hoje tento compreender porque se deu isso, porque aquele primeiro desenho tem totalmente a mesma linha de raciocínio do segundo e do terceiro depois - que foi sobre a Beyonce (colocando tudo no mesmo barco) -, e eu fico tentando compreender isso. A crítica é o capitalismo que, através de suas engrenagens, percebe e consegue se aproximar de lutas das minorias sociais e oferecer uma espécie de paliativos que são sensações de que você conquistou de fato algo. É até difícil encontrar as palavras certas porque, de fato, eu to pisando num terreno que de fato não me pertence.

Tem muitas meninas blogueiras negras, o pessoal LGBT, que faz crítica com recorte de classe em cima disso, que é um pouco o que eu tentei elaborar naquelas charges. Eu acho que é basicamente isso, uma boneca não resolve, representatividade é complicado, é difícil falar isso porque uma garota negra de fato não se vê nas bonecas que são todas brancas. Mas enquanto estrutura do sistema é algo paliativo. Alguns podem considerar uma vitória e uma conquista, e alguns consideram um charme do sistema para com os movimentos sociais, uma espécie de migalha que é colocada como representatividade.

Eu acho que tem gente muito mais qualificada do que eu pra fazer esse tipo de debate. Eu, na verdade, quis retratar a contradição que existe aí porque parte do trabalho do cartunista é apontar contradições. É o nosso trabalho. Brotou uma contradição, eu to pegando ela. Inclusive, as minhas próprias! É contraditório eu falar sobre esse assunto. Eu recebo todas essas críticas, dou total liberdade, não apago elas na página, não entro em conflito nas caixas de comentário, mas eu acho extremamente positivo, apesar de um pouco agressivo.

Achei que não seria assim meu primeiro contato com algumas lideranças do movimento negro, por exemplo. Ela poderia ter entrado em contato direto comigo e a gente poderia ter conversado sobre o assunto. Mas tá aberto, eu não acho ruim. Fiz uma charge recente sobre a capa da Veja com a Dilma como uma boneca inflável, que é justamente uma crítica à Veja vendo as mulheres desse ponto de vista misógino e muitas feministas me chamaram de misógino. Acho que essas críticas cabem, mas eu não vou deixar de fazer meu trabalho e expor minhas falhas e minhas limitações dado a minha construção social.

Eu me vejo nesse sentido como artista. Artistas expõem falhas também, eu sou comunicador e militante; mas, mais do que tudo, eu tento explorar uma sensibilidade artística para dar minha visão de mundo. Então se eu estou nessa condição social, inevitavelmente, eu vou esbarrar nesses problemas. Tento fazer tudo isso com a máxima humildade, sem arrogância, mas é difícil porque na internet isso não aparece. Meu trabalho não é resposta de nada, é pergunta. Na internet tudo fica muito nebuloso. As pessoas entram e acham que você é um escroto, que está dando risada, e pelo menos da minha parte não tem isso. Qualquer pessoa que me manda mensagem por inbox vai ter uma resposta de aceitação da divergência, exceto discursos de ódio, o que é muito frequente também, inclusive na esquerda.


O que você está esperando dessa parceria com o Brasil de Fato?

Eu sempre costumo falar, quando vou fazer fala sobre comunicação, que estamos em um período de muitas alternativas com a internet, coletivos, grupos que conseguem financiamento, alguns por editais, muita gente correndo atrás. É muito importante porque as grandes redações estão minguando e esses profissionais precisam ir para algum lugar. É até um discurso meio trabalhista de oferecer postos de trabalho, especialmente para essas pessoas que estão se formando de maneira independente na internet. Se todos esses cartunistas que eu conheci tiverem que trabalhar e não tiverem espaço no campo popular, eles vão trabalhar na grande mídia e o campo popular vai perder esse insumo. Eu fiz uma oficina na CUT uma vez e falei isso, que os movimentos sociais e sindicais tem que contratar de algum jeito essa molecada, se não eles vão sair e ter que trabalhar com a direita, ou nem trabalhar, porque estão fechando os postos de trabalho. A pessoa fica em uma sinuca de bico. A gente não vive de like no Facebook. É muito legal ter um monte de seguidores, mas não paga o aluguel no final do mês. Eu fico muito grato com o esforço das entidades porque sei que o financiamento é complicado, ainda mais nesse momento de crise econômica, com esse possível governo reacionário.

"Ponte para o Futuro" vai ser uma ladeira para o inferno, inclusive para esses veículos do campo popular que vão sofrer. A primeira coisa que vão fazer é perseguir os movimentos sociais e trabalhistas. A gente teve muita sorte, eu vivi esse período de abundância de 2002 para cá. Não faltava emprego, tudo em alta, programas sociais mesmo que com timidez, Prouni, distribuição de renda. Claro que olhando do plano revolucionário tudo isso é muito pouco, mas de um ponto de vista social-democrata foram feitos uma série de avanços.

Em comparação as anos 90 neoliberais, isso aqui foi lindo. A gente viveu esse período e o que está por vir é assustador, principalmente para essas entidades que financiam o trabalho independente e progressista. E agora eu vou citar o Cunha: “que Deus tenha piedade dessa nação”! Acho que o Brasil de Fato, como qualquer veículo contra-hegemônico, popular; é mais do que necessário para fazer o enfrentamento direto agora porque vem noite neoliberal e das fritas. Precisamos de muita gente combativa sabendo o que está fazendo, uma análise de conjuntura certeira, não dá para errar mais. Da minha parte vou me dedicar tanto dentro daqui quanto fora para fazer enfrentamento. Espero que os dirigentes dos meios de comunicação tenham coragem para também fazer esse enfrentamento.

Edição: Camila Maciel e Simone Freire.

VITOR TEIXEIRA: O ILUSTRADOR À ESQUERDA E SEUS DESENHOS POLITIZADOS

Provocador, incendiário, colaborador de causas.

Conheça o talentoso ilustrador Vitor Teixeira e seus desenhos de cunho politicosocial na luta de uma sociedade mais justa e democrática.


O Jovem paulista de 27 anos, Vitor Teixeira, ganhou notoriedade na época dos prostestos de junho de 2013. Você pode não conhece-lo, mas provavelmente já viu alguns de seus trabalhos compartilhados no Facebook, principalmente em páginas de esquerda. Vitor é um desenhista talentoso e politizado que através de sua arte critica o corporativismo, capitalismo e a direita. Defende as minorias e nos mostra as contradições de uma sociedade doente. Em seus desenhos, mesmo quem não compactua com a mesma ideologia, pode admirar o traço peculiar do ilustrador latino americano à esquerda. Conversei com ele sobre seu trabalho, suas inspirações e a ideologia por trás de sua arte.


MANIFESTO DAS ARTES: Como surgiu a ideia da página "Vitor Teixeira"?

Vitor Teixeira: Eu tinha feito uma página pra hospedar meus desenhos pessoais, que não tinham caráter crítico algum, até começar a fazer as charges e tiras em junho do ano passado. Influenciado pelas “jornadas de junho”, comecei a produzir esse material politizado e a enviar para os meios de comunicação alternativos, coletivos, movimentos sociais e blogueiros.


MANIFESTO DAS ARTES: O que gosta de fazer quando não está desenhando?

Vitor Teixeira: Tenho gostado de ler muito sobre história e sociologia, especialmente do Brasil e da América Latina. Ajuda muito no meu trabalho. Viajar também.


MANIFESTO DAS ARTES: O que te motiva a continuar?

Vitor Teixeira: Ver internautas, estudantes, movimentos sociais e comunidades utilizando meus trabalhos para defenderem suas lutas e pontos de vista.


MANIFESTO DAS ARTES: Qual é a dificuldade de ser um ilustrador independente no Brasil? É necessário ter outro emprego? Tem como viver disso?

Vitor Teixeira: Se não quiser ficar rico, tem como viver como ilustrador sim (risos). São muitas as dificuldades, não existe um modelo quando se é independente, cada um vai ter uma resposta para essa pergunta. Não atuo apenas como chargista, pois presto serviço para empresas em outras áreas, mas sempre como ilustrador. O difícil mesmo é quando se tem princípios. Por exemplo: hoje em dia eu não aceitaria fazer desenhos para empresas do ramo têxtil que utilizam trabalho escravo, ou ilustrar para campanhas de empresas ou meios de comunicação elitistas e preconceituosos.


MANIFESTO DAS ARTES: Que dicas daria para quem almeja ser ilustrador?

Vitor Teixeira: Depende do que você quer fazer com o seu trabalho. A criatividade e os ideais são mais importantes do que o aspecto visual no meu trabalho. Minha dica é se impregnar da produção de gente que já está na estrada. Pesquisar, se informar e buscar conhecimento. Técnica se aprende rápido, ainda mais sendo jovem. Já bagagem cultural é algo que exige dedicação para ser constituído.


MANIFESTO DAS ARTES: Quando e como começou sua paixão por desenhar?

Vitor Teixeira: Desde as minhas primeiras memórias. Mas foi intensificada quando eu tinha entre 10 e 13 anos, quando tive contato com histórias em quadrinhos.


MANIFESTO DAS ARTES: Quais são suas inspirações?

Vitor Teixeira: A lista é grande, mas vamos lá: Ziraldo, Henfil, Robert Crumb, Ricardo Liniers, Rômolo, André Dahmer, Andy Singer, Laerte, Jean Julien, Carlos Latuff, Joan Cornellà, Allan Sieber, Quino, entre vários outros, de diversos campos de atuação, dos cartunistas aos conceituais. Mas minhas atuais inspirações também estão no campo do pensamento. Figuras como Darcy Ribeiro, Eduardo Galeano e Pablo Neruda também tem influenciado à beça meu trabalho.


MANIFESTO DAS ARTES: Quais são as mensagem de suas artes?

Vitor Teixeira: Costumo dizer que são três frentes. A primeira, de apoio às minorias, aos direitos humanos e oprimidos pelo sistema: negros, índios, mulheres, LGBT, sem teto, etc. A segunda, de crítica aos meios de comunicação corporativistas e burgueses que monopolizam a informação no nosso país. E a terceira, pela integração com o continente latinoamericano, por um Brasil cada vez mais integrado a nossos irmãos de língua espanhola.


MANIFESTO DAS ARTES: Que estilos de desenho mais te agradam?

Vitor Teixeira: Os que despertam reações maiores que “Oh, que bonito!”.


MANIFESTO DAS ARTES: Como é o seu processo de criação de um desenho? Quais são os materiais que usa para finalizar sua arte e colocar em sua página?

Vitor Teixeira: Varia muito. Tem dias que acordo cheio de idéias, e em outros passo horas buscando um assunto e uma interpretação para ele. O pessoal que segue a página no Facebook ajuda muito, propondo assuntos e inúmeras abordagens. Meu material para as charges é quase todo digital, feito com tablet, edição de imagens, etc. Quando tenho tempo, gosto de usar nanquim e aquarela.


MANIFESTO DAS ARTES: Quando e como começou seu interesse por política? Quando se descobriu de esquerda? Você apoia algum partido político?

Vitor Teixeira: Meu interesse por política começou do meio para o final de 2012, quando, por algum motivo que não me lembro, comecei a buscar outros portais de internet fora do circuito comercial para me informar. Foi quando me deparei com a blogosfera independente brasileira, e com o twitter, onde os jornalistas atuam de maneira mais livre. Depois veio junho de 2013, fiz alguns desenhos que tiveram muita exposição, graças a esses blogueiros e portais alternativos. A partir daí, conheci muitas pessoas e movimentos e tenho tentado ler e me informar o máximo possível para ter base teórica e histórica para fundamentar meus desenhos, e ter uma linha de raciocínio e produção coerente.


MANIFESTO DAS ARTES: Como você costuma responder à afirmações clichês como: a esquerda não tem compromisso com a realidade, vai para Cuba, entre outras? Você usa Iphone e internet, acredita que isso é contraditório?

Vitor Teixeira: Respondo com meu trabalho. A maioria das pessoas que utiliza esse tipo de argumento vazio não dá abertura para questionamentos nem debate. Nem toda discussão vale a pena, especialmente em caixas de comentário de portais como o G1 ou UOL ou no churrasco com a família. Não tenho iPhone, uso internet, mas independente disso tudo sei que tecnologia não é algo inerente ao sistema capitalista. Acho que tem muito de polêmica e pouco de profundidade nessa discussão.


MANIFESTO DAS ARTES: O conceito de esquerda no Brasil é associado em defender certas causas como legalização de drogas, aborto, coletivismo, etc. É possível ser de esquerda e não concordar com estes pontos?

Vitor Teixeira: Sou branco e tive condições sociais para me formar e para trabalhar. Posso usar drogas tranquilamente no meu apartamento, enquanto jovens negros tomam tapa na cara de PM na favela se for pego fumando um baseado. Se eu for pego, provavelmente com a ajuda de um advogado serei enquadrado como usuário e pagarei algumas cestas básicas. Se o jovem negro e pobre for pego com duas buchas no bolso, ficará enjaulado em uma escola do crime. Se eu não me solidarizar com isso, não me considere de esquerda.


MANIFESTO DAS ARTES: Alguém com viés ideológico diferente já te fez mudar de idéia com relação a algum assunto que você tinha plena convicção?

Vitor Teixeira: O tempo todo. Só tenho 27 anos, estou no despertar da minha “consciência social e política”. Tenho muito a aprender com quem está na luta há muito mais tempo que eu, seja seu viés ideológico qual for.


MANIFESTO DAS ARTES: O que pensa sobre essa onda de justiceiros que tem surgido? Acredita que a mídia tem influenciado nisso?

Vitor Teixeira: É revoltante. A mídia influencia tudo, tem televisor em todo canto desse país. Bares, barbeiros, salões de beleza, salas de espera, hospitais, restaurantes, mansões e barracos. O povo se impregna dessas porcarias, e alguns seguem as cartilhas da intolerância à risca. Nos centros urbanos temos a internet, mas no Brasil profundo, a TV ainda é quem manda. Novamente, o grupo atacado por essas aberrações é o de pobres e pretos, inclusive mulheres. A propósito, a truculência da "justiça" executada por esses trogloditas é muito semelhante à truculência de um certo juiz do alto escalão, adorado pelos meios de comunicação (acabei de ter uma idéia pra um cartum, risos).


MANIFESTO DAS ARTES: Como seu trabalho é exposto diretamente em sua página de Facebook e em seu Tumblr, usando a internet como o meio de propagar sua arte, qual seria sua opinião sobre o Marco Civil?

Vitor Teixeira: Tem gente muito mais qualificada do que eu para responder isso. O criador da www disse que esse projeto será copiado pelo mundo todo, que o texto do nosso Marco Civil é a vanguarda da rede. Quem critica negativamente, ou não leu o projeto, ou tem interesses políticos na desmoralização dele.


MANIFESTO DAS ARTES: Em suas ilustrações, você satiriza com frequência o filósofo Olavo de Carvalho. Acredita que ele é uma má influência a jovens não politizados assim como a revista Veja, Rodrigo Constantino, Reinaldo Azevedo,Luiz Felipe Pondé, Datena e Rachel Sheherazade?

Vitor Teixeira: Esses que você citou são símbolos da intolerância, truculência, servilismo, viralatismo tupiniquim e da total ausência de solidariedade. Seja no campo econômico, filosófico ou da opinião popular. Mas diferente do que muitos falam por aí, o povo é astuto, e sabe quem está do lado dele. A juventude é de fato o alvo mais frágil, ainda mais com o alcance que Constantino e Datena têm, por serem arautos do corporativismo midiático. Mas nós, que geramos conteúdo independente na internet, somos muitos, e dispostos a enfrentar esse senso comum fascistóide.


MANIFESTO DAS ARTES: O que pensa sobre os jovens conservadores que tem surgido? Acredita que o povo brasileiro está mais politizado depois das manifestações de Junho?

Vitor Teixeira: Esses novos conservadores são produto dessa mídia elitista, anti-povo, que ainda não foi combatida frontalmente pelo governo federal. A política institucional (parlamento, ministérios, assembléias legislativas) e sua falta de representatividade também ajudam esse jovem a se desinteressar, e consequentemente a se identificar com gente que usa discurso raso e intolerante pra arrebanhar seguidores raivosos. De qualquer maneira, as pessoas estão mais afim de falar sobre política desde junho, sem dúvida. Os partidos menores, coletivos, estudantes e as comunidades estão se fortalecendo, mas o classe média de direita também está se libertando da vergonha que tinha de falar que “bandido bom é bandido morto”.


MANIFESTO DAS ARTES: O que pensa sobre a política na internet? Como você encara as páginas populares como "TV Revolta"? Você acredita que páginas como essa são financiadas por políticos de direita?

Vitor Teixeira: Penso que nesse cenário, onde o poder executivo não dissolve esse monopólio de mídia que existe a mais de 50 anos, a internet é a única opção para expor seus pontos de vista. Não temos espaço nos grandes meios, pois são concentrados e elitizados. Nesse barco da internet vamos nós, mas vêm também os malucos radicais de extrema direita que pregam ódio à política para encher suas páginas. É importante sabermos diferenciar quem é quem nesse espaço, e não nos deixarmos ser confundidos. Sobre financiamento, não sei dizer. Muita gente fala muita coisa sem fundamento. Muitos me acusam de receber do PT. Ainda não caiu nada na minha conta.


MANIFESTO DAS ARTES: O que pensa sobre o governo de Lula e Dilma com o polêmico Bolsa Famíla? Acredita que o governo é assistencialista?

Vitor Teixeira: Assistencialismo virou um termo pejorativo no âmbito do senso comum da classe média brasileira depois da criação das bolsas e cotas. Assistir as classes mais pobres é o mínimo para tentar criar igualdade em uma sociedade tão desproporcional como a nossa. Convido as pessoas a conhecerem o sertão nordestino e comunidades ribeirinhas no interior do Pará, ou as favelas urbanas de São Paulo, Rio e Recife. Se enfiar nos grotões e nas margens do nosso país talvez sensibilize minimamente as pessoas que criticam esses programas. Além disso, é importante olhar os indicadores, os estudos, e ler os teóricos e estudiosos do programa. Ao meu ver, são programas que devem ser política de estado, e ampliados ao máximo.


MANIFESTO DAS ARTES: Você acha que suas ilustrações podem despertar um interesse político nos seus seguidores? Acredita que é um formador de opinião?

Vitor Teixeira: Sem dúvida que desperta. Espero ter cada vez mais espaço e respaldo dos movimentos, partidos sérios e organizações do povo para colaborar com sua politização e formação crítica. Não gosto do termo “formador de opinião”, prefiro provocador, incendiário ou colaborador de causas.


MANIFESTO DAS ARTES: Você é à favor ou contra a Copa do mundo ser realizada no Brasil?

Vitor Teixeira: Sou a favor da Copa, pois o futebol é um bem cultural das massas no nosso país. Sou contra os métodos do Estado e as condições da Fifa. São questões difíceis e polêmicas, que devem ser amplamente debatida em todos os setores da sociedade, antes, durante e depois da Copa. Mas será muito mais fácil me encontrar fora do que dentro dos estádios daqui a um mês. Sou contra remoções, truculência, leis absurdas contra greves ou terrorismo, desvios de verbas, superfaturamento, mas torcerei muito pela nossa seleção.


MANIFESTO DAS ARTES: Como você enxerga o Brasil pós-Copa?

Vitor Teixeira: Estamos em processo de fortalecimento da nossa democracia, isso é o mais importante. Precisamos de reformas, e a mais importante delas talvez seja a política, para mudarmos as regras do jogo eleitoral e a cara do parlamento, para que ele seja mais coerente e plural. Esse é um passo imprescindível que precisa ser dado, para que outras reformas sejam feitas, para aperfeiçoar a estrutura das nossas instituições. Mídia democratizada por uma regulação que crie mais vozes e conteúdo nacional, terras com mais famílias trabalhando, mais poder e representatividade para o pobre, negro, gay, indígena e para toda a massa de trabalhadores que move esse país.




quarta-feira, 9 de novembro de 2016

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

JOAN CORNELLA

Joan Cornellà Vázquez (born 11 January 1981, Barcelona) is a cartoonist and illustrator famous for his unsettling, surreal humor and black humorous comic strips as well as artwork.

Cornellà’s work has often been described as disturbing or flat-out offensive. Through simplistic visual language, he is able to use satire to comment on the sinister and often bleak side of human nature through a myriad of unconventional scenarios. Everything from our unnatural connection to social media and masturbatory selfie culture to political topics such as abortion, addiction and gender issues - no subject is off limits. Cornellà’s work revels in its absurdity and impropriety.

Upon first glance, Cornellà’s work seems light-hearted and playful, his figures all share a generic blank smile and bright cheery color palette (akin to 1950’s advertising or Airline safety pamphlets) Upon further inspection however, the overwhelming morbidness and unnerving nature shines through with unparalleled force. Black comedy, at it’s core, is about satirizing subjects that are traditionally prohibited, things that are seen as too sa-cred or off limits. Cornellà pokes fun at such topics and cuts to their core with gags and minimal visual clues, illustrating scenes of cannibalism, infanticide, deification, murder, suicide and amputation (used most frequently). While some feel affronted by his work, many connect over it, laughing and feeling bad for laughing all at the same time.

Thought-provoking, honest and incredibly entertaining, Cornellà's work is truly since-re and holds real potency in its message, even when disguised through blatant humor. In the artist’s own words: “I think we all laugh at misery. We must start from the idea that when we laugh, we laugh at someone or something. With empathy or not, there is always some degree of cruelty. In spite of that, I am aware that if one of my cartoons happened in real life I would not laugh at all”.

Cornellà’s audience and fans share a certain level of skepticism and cynicism that unify their shared experience: “I agree with a phrase by Bill Hicks: ‘I believe there is an equality to all humanity. We all suck.’ In my comics characters are like plastic and always have a big smile even though horrible things happen to them constantly. Everything is exaggerated, although certain behaviours can relate to real life,” he says.