segunda-feira, 6 de outubro de 2014

POETISA PRESTARÁ HOMENAGEM A MESÁRIOS EM SEÇÃO ELEITORAL

Dona Geni entrega as poesias há três eleições - EMIDIO MARQUES

Dentre os centenas de eleitores que devem comparecer no próximo domingo a Escola Estadual Professor Enéas Proença Arruda, no Jardim Maria do Carmo, existe uma visita especialmente esperada pelos mesários. A presença em questão chega sorridente, simpática, agradecida e traz consigo um pouco de poesia e reconhecimento pelo trabalho prestado pelos voluntários, no dia em que a população é convocada a exercer o direito ao voto.

Pelo menos é assim há três eleições. As palavras escritas e enfeitadas à mão pela pensionista Geni Antonia de Miranda Coelho, são fruto de uma inspiração que nem mesmo a Poetisa Genérica, como assina seus textos, sabe precisar. "As ideias vêm da gratidão com que eles recebem meus acrósticos. E, se existirem outras vidas, elas vêm de lá", cita.

No próximo domingo não deve ser diferente. "Dona Geni", como é conhecida, promete levar a poesia, que já está pronta, como forma de homenagem aos mesários que irão recepcioná-la quando for votar. Ela, aliás, não abre mão do direito, mesmo já tendo vivido 73 primaveras. "A política é importante e necessária desde os tempos mais antigos e cabe a nós participarmos desse processo", afirma. A segunda estrofe do acróstico deste ano, inclusive, é dedicada e este tema. "E hoje neste dia tão claro/ Coroado pela força do sol radiante/ Todos os povos se juntaram/ Numa missão importante", destaca a poesia com o título "Mesário".

Viúva, mãe de nove filhos e sem nenhuma formação na área literária, Geni conta que começou a escrever poesias em 1986. A primeira delas foi dedicada ao então radialista Eli Correa e, curiosamente, não foi entregue até hoje. "Foi um descuido meu", justifica ela, que enxerga nos seus acrósticos uma forma de transmitir suas mensagens e presentear as pessoas queridas. "Já me sugeriram que eu escrevesse um livro, mas meu gosto mesmo é pela gratidão com que as pessoas recebem minhas homenagens", revela. Sem periodicidade definida para seus escritos, conta, ela escreve quando e sobre o que tem vontade, embora aceite também encomendas de amigos. O último trabalho, ainda em rascunho, faz uma comparação entre as eleições e a Copa do Mundo. "Esse eu guardo para mim, são minhas impressões", pondera.

O gosto pelas palavras, lembra, surgiu depois de casada. "Meu marido nunca teve ciúmes das minhas poesias. Ele mesmo declamava sempre para mim uma estrofe de amor que havia feito para ele", declara ela, que depois disso chegou a escrever para prefeitos, amigos e personalidades. A única coisa que não mudou, desde então, foi o local reservado para a escrita. "Sento na minha mesinha de oração, reuno os papeis em branco e então as palavras fluem", diz. Como escreve sem tema definido, optou por autodenominar-se Poetisa Genérica. "O nome surgiu porque eu escrevo sem compromisso e de forma espontânea", explica.

O acróstico, composição poética em que as letras iniciais formam uma palavra vertical, é escrita a mão e com desenhos nas laterais. A letra, redonda, revela muito. "Essa é minha marca", aponta. Além disso, Geni confessa não estar, ainda, familiarizada com a máquina de escrever que possui na sua casa. "Normalmente eu escrevo em dez minutos. Se for na base dos botões, demoro mais de duas horas, brinca ela, que espera nessas eleições, que sua poesia sirva para dar alegria aos mesários. "Nesses poucos anos, já foram tantas histórias de agradecimento que, se fosse guardar todas no coração, precisaria de um novo", finaliza. (Supervisão - Amilton Lourenço)

SOBRENOME LIBERDADE - ALÉM DO SARAU - 02/10/14

Voltei com o melhor da poesia marginal.
















domingo, 5 de outubro de 2014

(SOBRE)VIVER

VIVER É COMPLICADO, MAIS AINDA QUANDO NOS TORNAMOS CONSCIENTES DAS CONSEQUÊNCIAS DOS NOSSOS ATOS OU DA NOSSA CONDIÇÃO DE INÉRCIA EM NOSSAS RELAÇÕES, SEJAM ELAS SOCIAIS, AMOROSAS, FAMILIARES, COM A NATUREZA ETC., E TAMBÉM DIANTE DOS ACONTECIMENTOS QUE OCORREM A TODO O MOMENTO MUNDO AFORA.

HÁ OS QUE ACREDITAM QUE UM DIA VIVERÃO EM UM MUNDO PERFEITO, SEM CONFLITOS, SEM MORTES, SEM DOR, SEM TRISTEZA E NEM OUTROS MALES COMO OS QUE ASSOLAM ESTA SOCIEDADE: NUM PARAÍSO. HÁ OS QUE NÃO ACREDITAM NO PARAÍSO E QUE UM MUNDO PERFEITO NUNCA IRÁ EXISTIR, DEVIDO AO EGOÍSMO DOS SERES HUMANOS.

PENSO QUE O EGOÍSMO ESTÁ PRESENTE EM CADA UM DE NÓS, EM UNS DE MAIS, EM OUTROS DE MENOS, MAS ACHO QUE ALGUMAS PESSOAS NÃO ENTENDEM QUE, NESTE MUNDO ONDE IMPERA UM DESEJO POR ACUMULAÇÃO DE RIQUEZAS E UMA BUSCA INCONSEQUENTE POR BENS MATERIAIS (UMA CORRIDA POR ASCENSÃO DO STATUS SOCIAL), HÁ TAMBÉM PESSOAS QUE PREZAM PELO BEM ESTAR DO COLETIVO, SUPRIMEM O EGOÍSMO E SE ENGAJAM EM CAUSAS BUSCANDO UMA MELHORIA NA QUALIDADE DE VIDA PARA TODAS AS PESSOAS.

PERCEBO QUE EM MUITOS DISCURSOS HÁ A CRIMINALIZAÇÃO DOS QUE, ATUALMENTE, LUTAM POR MELHORIAS, ASSIM COMO NOSSOS ANTEPASSADOS LUTARAM PARA QUE GOZÁSSEMOS DE UMA MAIOR IGUALDADE NESTA RELAÇÃO DE CLASSES EM QUE VIVEMOS. ACHO QUE ESTAS PESSOAS DEVEM PENSAR QUE NUM BELO DIA, OS SENHORES FEUDAIS FORAM ILUMINADOS POR UMA LUZ DE BONDADE E DECIDIRAM LIBERTAR OS ESCRAVOS; QUE TODOS OS DIREITOS QUE USUFRUÍMOS PARTIRAM DA BOA VONTADE DOS POLÍTICOS QUE NOS REPRESENTAM; QUE AS EMPRESAS BENEFICIAM OS FUNCIONÁRIOS COM VALE REFEIÇÃO, VALE TRANSPORTE, SEGURO DE SAÚDE ETC. POR LIVRE E ESPONTÂNEA VONTADE; QUE OS ESTUDANTES PAGAM MEIA-ENTRADA EM EVENTOS E LUGARES PORQUE AS INSTITUIÇÕES ABRIRAM MÃO DE OBTER UM MAIOR LUCRO EM PROL DE UMA INCLUSÃO CULTURAL.

APOSTO QUE UMA BOA PARTE DAS PESSOAS NÃO SABE OU SIMPLESMENTE IGNORA O FATO DE QUE ISSO TUDO FOI CONQUISTADO COM CONSCIENTIZAÇÃO E LUTA, ONDE OS ESCRAVOS SE REBELARAM E DECIDIRAM SE LIBERTAR, FORMANDO OS QUILOMBOS; ONDE POR MEIO DE ORGANIZAÇÃO E PRESSÃO POPULAR, FORAM APROVADOS PROJETOS E LEIS QUE BENEFICIASSEM O POVO; ONDE OS OPERÁRIOS FIZERAM DIVERSAS GREVES REIVINDICANDO MELHORES CONDIÇÕES DE TRABALHO; ONDE GRUPOS ESTUDANTIS SE ORGANIZARAM E REIVINDICARAM MENORES PREÇOS EM PROL DE UMA INCLUSÃO CULTURAL ETC., OU SEJA, MUITOS LUTARAM E ATÉ MESMO PERDERAM A VIDA PARA QUE TIVÉSSEMOS MELHORIAS NA NOSSA QUALIDADE DE VIDA COMO CIDADÃOS, ESTUDANTES E TRABALHADORES.

A PARTIR DO MOMENTO EM QUE EU ME TORNEI CONSCIENTE DE QUE NESTA SOCIEDADE EU SOU UM AGENTE TRANSFORMADOR, VENHO ESTUDADO, REFLETIDO E TOMADO ATITUDES DE FORMA A VIVER A MINHA VIDA, MAS SEMPRE PREZANDO PELA HARMONIA NAS MINHAS RELAÇÕES E ME ENGAJANDO EM CAUSAS QUE EU POSSO E ACHO QUE VALEM A PENA. ATUALMENTE, FAÇO (FAN)ZINES, SOCRASTICKERS E PARTICIPO DE ALGUMAS INTERVENÇÕES ONDE PROPAGO CONHECIMENTO E POESIA, SEMPRE EM BUSCA DE UMA (R)EVOLUÇÃO SOCIAL. MAS NÃO PRETENDO PARAR POR AÍ, AINDA TENHO MUITO QUE APRENDER E A REALIZAR PELA FRENTE, HÁ MUITAS LUTAS A SEREM TRAVADAS. NEM TODA LUTA SE FAZ COM PROTESTOS NAS RUAS, HÁ LUTA TAMBÉM EM ATOS DE CONSCIENTIZAÇÃO E SOLIDARIEDADE: FAÇAMOS A NOSSA PARTE.

SOBRE APRENDER

ATÉ MEUS DEZESSETE ANOS DE IDADE EU POUCO ESTUDAVA FORA DA SALA DE AULA, NÃO ERA UM LEITOR MUITO ÁVIDO E NÃO ME INTERESSAVA POR POESIA, MAS DESDE QUANDO TERMINEI O CURSINHO PRÉ-VESTIBULAR, EM 2011, TENHO ORGANIZADO DIVERSOS PLANOS DE ESTUDOS NOS QUAIS EU APRENDA NÃO SÓ O CONTEÚDO DE UMA GRADE CURRICULAR, MAS INDO ALÉM, PESQUISANDO, LENDO E ESTUDANDO OS MAIS DIVERSOS ASSUNTOS A FIM DE FORMAR UM IDEÁRIO.

PERCEBO QUE NAQUELA ÉPOCA O MEU CONCEITO SOBRE APRENDER ERA OUTRO, ESTAVA MAIS FOCADO EM QUERER SABER O QUE ESTAVA ESCRITO (PENDENDO PARA O DECORAR), AO INVÉS DE PENSAR SOBRE O ASSUNTO, FAZENDO MINHAS CRÍTICAS E REFLEXÕES COM O INTUITO DE FORMAR UMA OPINIÃO.

TENHO PENSADO SOBRE ESTA QUESTÃO DO APRENDIZADO, NA QUAL VEJO QUE, MUITAS VEZES, HÁ APENAS A DECLAMAÇÃO DE PENSAMENTOS QUE FORAM LIDOS DE OUTROS AUTORES. NÃO PENSO QUE ISSO É ALGO RUIM, POIS LENDO SUAS OBRAS PODEMOS FORMAR NOVAS IDEIAS ACERCA DE CERTOS ASSUNTOS. É COMO DIZ ITALO CALVINO EM SEU LIVRO “POR QUE LER OS CLÁSSICOS”: “4. TODA RELEITURA DE UM CLÁSSICO É UMA LEITURA DE DESCOBERTA COMO A PRIMEIRA.” E “6. UM CLÁSSICO É UM LIVRO QUE NUNCA TERMINOU DE DIZER AQUILO QUE TINHA PARA DIZER.”. PORTANTO, COM BASE NESTE PENSAMENTO, PODEMOS REVER O NOSSO CONCEITO SOBRE APRENDER BASEADO NA LEITURA DE GRANDES FILÓSOFOS, TEÓRICOS E PENSADORES, QUE NOS LEGARAM SUA VASTA GAMA DE CONHECIMENTOS E TRABALHAR O NOSSO LIVRE PENSAR.

PARA MIM, ATUALMENTE, O APRENDER NÃO SE RESUME EM APENAS LEMBRAR O QUE CERTA PENSADORA ESCREVEU OU DISSE EM CERTA OBRA OU OCASIÃO, É FAZER CRÍTICAS, REFLETIR E ATÉ MESMO REFUTAR IDEIAS A FIM DE FORMAR UMA OPINIÃO SOBRE O ASSUNTO. PARA MIM, O APRENDER NÃO É SÓ ME ALIMENTAR DE TEXTOS E TEORIAS PARA DEPOIS VOMITAR TUDO O QUE FOI LIDO.

UMA IDEIA QUE PARTILHO SOBRE O CONHECIMENTO ADQUIRIDO COM BASE NO APRENDIZADO E NA LEITURA É: “A SABEDORIA, POR SUA VEZ, CONSISTIRIA NÃO APENAS NO CONHECIMENTO TEORÉTICO DAS ESSÊNCIAS, IDEIAS, CAUSAS OU PRINCÍPIOS DAS COISAS, MAS NA VIDA DE ACORDO COM ESSE CONHECIMENTO, POIS SÓ O ACORDO, OU A HARMONIA, DA VIDA TEORÉTICA E DA VIDA PRÁTICA PODERIA PROPORCIONAR A EUDAMONÍA, QUER DIZER, A ‘FELICIDADE’, RAZÃO DE SER DA FILOSOFIA.”.

“NUMA EVENTUAL DISCUSSÃO SOBRE COTAS RACIAIS, REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL, DESCRIMINALIZAÇÃO DAS DROGAS, APENAS PARA MOBILIZARMOS TEMAS PRESENTES NA AGENDA PÚBLICA BRASILEIRA, O SOCIÓLOGO NÃO É CAPAZ DE DAR A PALAVRA FINAL E MOBILIZA, A TODO O MOMENTO, AUTORES E CONCEITOS DE SUA TRADIÇÃO OS QUAIS O SENSO COMUM DESCONHECE. POR OUTRO LADO, NÃO É DESEJÁVEL QUE ELE SEJA CAPAZ DE ENCERRAR ESSAS E OUTRAS DISCUSSÕES, POIS A POSSIBILIDADE DE VISÕES PLURAIS QUANDO TRATAMOS DE ASSUNTOS DE NATUREZA MORAL É BEM-VINDA.”

TEMOS QUE APRENDER A APRENDER, A ENSINAR E A PRATICAR O QUE FOI APRENDIDO, DE FORMA QUE NOSSOS ATOS E OPINIÕES NUNCA SEJAM EMBASADOS SEM UM SENSO CRÍTICO, NEM QUE OS MESMOS SEJAM IMPOSTOS COMO UMA VERDADE ABSOLUTA, TEMOS QUE FAZER UM CONVITE À REFLEXÃO, A FIM DE TORNAR ESTA SOCIEDADE MAIS HARMONIOSA NA TROCA DE IDEIAS E NAS NOSSAS RELAÇÕES.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

TRANSIÇÃO DA GERAÇÃO 45 PARA POESIA CONCRETA

Foi no horizonte complexo e de certas particularidades, o eclodir simultâneo em dois países, Suíça e Brasil, em período de estagnação e paralisia da arte da modernidade, ou seja, numa época desfavorável às vanguardas, onde a Poesia Concreta com certo atraso floresceu. O barrroco brasileiro fora assim. Anos depois, significativa produção concreta seria publicada em livros: Teoria da poesia concreta: textos críticos e manifestos, 1950-1960 (1965), Xadrez de estrelas (Haroldo de Campos, 1976), Poesia pois é poesia (Décio Pignatari, 1977), Viva Vaia 1949/1979 (Augusto de Campos, 1979).

É pertinente ressaltar, a Poesia Concreta acontecia de forma marcante em São Paulo, a maior cidade do país, para de lá se irradiar para o mundo. Os principais poetas do grupo permaneceram, atuando na cena cultural brasileira. O único do grupo fundador que continua na ativa é Augusto de Campos. O elenco diverso de referências que elegeram para bases teóricas resultaram em debates provocadores e estimulantes para, criticamente, repensarem-se pontos capitais da literatura e da arte contemporâneas. Mas, no afã de se incorporarem ao trajeto internacional da literatura, os poetas concretos deixaram de considerar aspectos que dizem respeito a outros centros brasileiros de produção, além do eixo Rio-São Paulo. Esses, não respondiam, necessariamente, ao projeto de modernidade emanado pela metrópole brasileira. Para efeito de contraste, basta lembrar o trabalho aglutinador das revistas paulistas produzidas na época do movimento modernista (na década de 20) e compará-lo ao papel das revistas do grupo concreto dos anos 50. Numa comparação desse tipo, não faltariam elementos para discutir o colonialismo interno, a dominação econômica e cultural, a importância de São Paulo nas relações internacionais estabelecidas pelo país. Esses elementos apontados geraram polêmicas e discordâncias. Isso confluiria, em reflexões identificadas em outros movimentos posteriores à Poesia Concreta, no período  pré e pós-golpe militar de 1964. O país se estilhaçava nas complexas divergências políticas e ideológicas e o autoritarismo se solidificava para, através do golpe de estado, instalar-se no poder, enquanto a esquerda dividida resistia fazendo uso das armas de que dispunha. 

Nesse cenário, se estruturava novas posturas e desdobramentos assumidos pelos artistas e intelectuais, como noss Centros Populares de Cultura, ligados ao ambiente universitário. O poeta Mário Chamie, publicaria em 1962 o livro Lavra-Lavra. Trazendo no posfácio o manifesto didático. Representava a “Poesia Praxis”, instaurado e programaticamente organizando através do ato de compor, da área ou da ambiência da composição mais um ato de consumir a escrita. Nesse mesmo ano aparecem os poemas “Cubagrama” e “Greve” de Augusto de Campos e “Portões abrem/patrões fecham” de Ronaldo Azeredo. A produção do “Grupo Tendência” de Belo Horizonte, de orientação marxista, vem à cena tendo o poeta Afonso Ávila à frente. A Bossa Nova internacionalizava-se e Vinícius de Moraes, poeta ligado à Geração de 45, recarrega baterias e consagra-se em letras de músicas antológicas. A inquietação permeava outras áreas de ação cultural e no mesmo ano do golpe militar o cineasta Glauber Rocha lançaria o filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, com trilha sonoro de Sérgio Ricardo. Em 1967, Glauber voltaria às salas de projeções cinematográficas, despontando “Terra em transe”. Naquele ano, decorreriam marcantes produções culturais: o Teatro Oficina montaria a encenação da peça “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa; o III Festival de Música Popular da TV Record disparava as interpretações vitoriosas das canções “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil, e “Alegria, alegria” de Caetano Veloso; transcorria a mostra visual Nova Objetividade no Museu de Arte Moderna no Rio de Janeiro, e era lançado o movimento do Poema-Processo.    

Para a história da literatura, das artes e da cultura, no Brasil, cumpria-se uma seqüência de invenção criativa posterior e decorrente da geração de João Cabral, de Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Jorge Amado à fase áurea da poesia e da prosa concretista. Era a época dos movimentos Neoconcreto, Praxis, Tendência,Tropicalista, Violão de Rua, Poema-Processo, Arte Construtiva. 

A última vanguarda dentre os movimentos sucessivos compreendendo aí os marcos fundadores de 45 João Cabral de Melo Neto e João Guimarães Rosa, respectivamente da poesia e prosa, até o formalismo ortodoxo o concreto,vem a ser a manifestação do Poema-Processo. Ele é participante do ciclo vanguardista brasileiro vinculado à modernidade cultural do país. Estaria oficialmente compreendido em caráter cronológico entre os anos de 1967 e 1972, abrangendo, portanto, cinco anos de atividade ininterrupta. Observar-se-á mais adiante, nesse movimento os poemas concretos LIFE (1957) e ORGANISMO (1960) de Décio Pignatari o quanto foram  importantes para a organização de conseqüentes e novas diretrizes poéticas. De 1945 a 1972 pode ser mais que isso. Mas é por aqui que se enxerga e se saboreia o supra sumo.


quinta-feira, 2 de outubro de 2014

MAFALDA N°130

GALERIA MARGINAL #4

Artista: Alberto Magnelli (1888-1970)












AO IG, DOIS PILARES DA LITERATURA MARGINAL NO BRASIL DIZEM COMO COMBATEM VIOLÊNCIA E IGNORÂNCIA COM SARAUS NAS PERIFERIAS


O poeta e escritor Sergio Vaz comemora 15 anos de fundação do Quilombo Cultural Cooperifa, que contamina de poesia o Jardim São Luiz, no Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo. Os encontros, sempre às quartas-feiras no bar do Zé Batidão, começaram com 17 pessoas e, atualmente, recebem um público de 300 a 500 pessoas por evento. “O maior orgulho de fazer 15 anos de Cooperifa não é a conquista de novos poetas, mas, sim, de novos leitores”, diz Sergio Vaz ao iG.

Ano após ano, jovens escritores se lançam no mercado a partir dos encontros, como é o caso de Márcio Vidal, que já lançou dois livros, "Receitas Para Amar No Século XXI" e "A Vida Em Três Tempos". "Cheguei ao sarau da Cooperifa em 2004 com meus poemas e o desejo de que alguém pudesse ler as coisas que escrevia. Seis anos depois, terminava a faculdade de Letras e lançava meu primeiro livro. O modo com que a Cooperifa entrou em minha vida fez com que eu pudesse correr atrás dos meus sonhos e isso que tenho buscado fazer: sonhar sem ficar parado", declara Marcio, que atualmente é mestrando em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo – USP.


Dados preocupantes

Desenvolver a habilidade leitora na criança e principalmente no adolescente é um grande desafio entre os objetivos da educação básica. Mais difícil é transformá-los em leitores críticos e convencê-los do prazer da leitura. Se o índice de leitura do brasileiro é de quatro livros por ano, como aponta a última pesquisa do instituto Pró-Livro, quando excluímos as obras indicadas pela escola podemos constatar que o jovem, em média, lê pouco mais de um livro por ano. É menos que na Colômbia, segundo dados do órgão colombiano Cerlalc, que apontam para 2,2, e muito menos que os espanhóis, que leem 10,3 obras no mesmo período.

Para tentar transformar essa realidade, Sergio também trabalha dentro das escolas com seus sete livros publicados, entre eles o "Colecionador de Pedras", que marca uma fase onde a periferia grita “temos muito o que dizer”, “somos poetas”, “somos a poesia". O projeto “Poesia contra violência” surgiu para percorrer as escolas públicas do Brasil levando poesia. “O melhor de ir até a escola é que o publico esta lá, esperando para ser conquistado, temos o retorno imediato e a criação de público esperada e o mais importante, despertamos corações para o fato de que todos podem fazer poesia. É a satisfação de ouvir na rua: Obrigado poeta, por ter ido à minha escola”, lembra Vaz.

“A visita às escolas é o trabalho mais gratificante a meu ver. Quando chegamos lá os alunos pensam: Opa, não vai ter aula! Na cabeça dele, ele não está tendo aula, mas talvez seja a melhor aula que ele vai ter no dia. É subliminar, não podemos rejeitar isso, é maravilhoso! Quando vejo alguém falar mal de professor, não concordo porque ele é reflexo do péssimo sistema de ensino do Estado. Não podemos falar mal do professor e dizer que tudo que está acontecendo é culpa do professor, o fato é que a criança não está sendo educada porque o Estado não quer que eduque. Para dar aula à noite na quebrada tem que ser macho. A gente tem que aprender a bater em quem realmente precisa apanhar”, completa.

Ferréz


Outro expoente do movimento cultural no Capão Redondo é o escritor Ferréz, que publicou seu primeiro livro em 1997, "Fortaleza da Desilusão", e seguiu dois anos depois com "Capão Pecado, história verdadeira da comunidade do Capão Redondo", que o projetou como um dos mais importantes escritores da Literatura periférica ou marginal do país.

Ferréz também criou a marca 1daSul, a antigrife que, além de ser uma marca de roupas e acessórios criada especialmente para os moradores da periferia, promove eventos e ações culturais na região do Capão Redondo, bairro onde mora. Ao perceber a quantidade de crianças que ficavam ociosas pelas ruas do bairro, Ferréz fundou há cinco anos Ong Interferência, que atualmente atende 65 crianças e adolescentes no contraturno escolar com atividades que trabalham a autonomia mirando o protagonismo social. “Vendo tantas crianças na porta dos bares na minha quebrada, sempre tive vontade de mudar o jogo. Hoje, o lugar se chama Interferência, onde cada criança entra, estuda, pinta, sorri, e depois ela mesma limpa para a próxima: é meu maior projeto como ser humano. Quando alguém vem me agradecer por estar fazendo isso, eu sinceramente não entendo, pois sou eu que estou recebendo abraços e sorrisos todos os dias, e isso é o maior pagamento do mundo”, relata Ferréz ao iG, sobre a ação social que desenvolve em sua comunidade.

Exemplo de vitória


Desse trabalho, o escritor viu surgirem novos nomes da cultura local, como Wagnão, que comanda atualmente o Sarau da Brasa, e Akins Kintê, do Sarau Elo da Corrente. “Vou à escola e os alunos querem me ver por carência, escutar uma pessoa que até deu certo na vida, usar a experiência de vida e dizer: 'nós vencemos sem entrar no crime'. Isso, para um moleque de 15 anos, é foda. Às vezes, ele não ouve isso do pai dele, que está trabalhando 24h por dia, chega estressado e ganha mil reais por mês. Não é o exemplo que ele quer ter. Ele quer um exemplo de vitória através da educação, da música, da arte, mas que seja mais longevo que isso, mais longevo que a família", diz.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

MINIDICIONÁRIO LIVRE DA LÍNGUA PORTUGUESA - MANOEL M. SANTIAGO-ALMEIDA


MENINA DE 11 ANOS QUE SOFRIA BULLYING LEVA PROJETO DE POESIA À COMUNIDADE


'Montando Versos' oferece oficinas ao público infantil de Petrópolis, no RJ.
Autora lançou o primeiro livro “De um ponto eu traço o conto” este ano.

Uma menina de 11 anos, que sofreu bullying na escola onde estudava, conseguiu transformar sua dor em poesia e está transformando a vida de um grupo de crianças de uma comunidade carente de Petrópolis, na Região Serrana do Rio, atráves de um projeto idealizado por ela. Julia Travassos, que já tem um livro publicado, está oferecendo oficinas gratuitas de poesia para as crianças do Meio da Serra com o  principal objetivo de incentivar as crianças a escrever, ilustrar e declamar poesias e contos poéticos livres. A iniciativa, chamada “Montando Versos”, é coordenada pela mãe da autora mirim, Verônica de Mello.

O universo literário está presente na vida da jovem autora desde muito cedo. Ela escreve contos e poemas desde os 6 anos de idade. O primeiro livro, lançado em março deste ano, intitulado “De um ponto eu traço o conto”, foi escrito junto com a mãe, que também é escritora. A experiência tem sido tão proveitosa, que ela decidiu compartilhá-la com as amigas do bairro, que não tinham a oportunidade de desenvolver a arte.


“Eu estava ouvindo a minha mãe no telefone, ela falava sobre poemas com uma amiga. Foi quando tive a ideia de me reunir com minhas colegas aqui do bairro, para também fazermos poesia. Na mesma hora veio na minha cabeça o nome do grupo: Montando Versos. Pedi ajuda a minha mãe e começamos a nos reunir”, conta Julia.

No início, os encontros ocorriam na casa da família da Júlia. Para incentivar a jovem, a mãe passou a coordená-los, promovendo leituras poéticas e explicando os conceitos de prosa, trova e poesia. O espaço ficou pequeno e o grupo aumentou. Hoje, são 10 crianças que se reúnem todas as sextas-feiras em uma sala de um shopping, cedido ao projeto beneficente, no Alto da Serra. Elas vão para o  encontro de ônibus de linha e, ao término das aulas, retornam para o bairro de táxi, para garantir maior segurança, tudo custeado por Verônica.

Nos encontros, os poetas mirins desenvolvem textos com um mesmo tema. Versos são selecionadas de cada um deles. Nesse processo criativo, a coordenadora realiza combinações entre eles, e monta uma poesia ou conto poético em várias mãos.

“As crianças começaram a desenvolver os textos e estimular a criatividade. Todas apresentaram melhoras na língua portuguesa e os resultados já foram sentidos pelos pais e professores na escola. É muito recompensador ver que este trabalho tem ajudado essas crianças a desenvolverem seus talentos e contribuído para que possam aperfeiçoar suas habilidades de escrita e até mesmo de socialização. Minha filha e eu temos nos mantido firme no propósito de contribuir com nossa comunidade, mesmo não tendo ajuda nenhuma”, comenta Verônica, que pretende lançar um livro, com os poemas criados pelas crianças, no próximo ano.


Superando o bullying

Segundo a mãe da menina, Verônica de Mello,  a pequena Julia começou seu amor pela poesia e pela escrita depois de ter sofrido bullying no colégio onde estudava. O projeto que desenvolve agora, o “Montando Versos”, é resultado de toda sua transformação, após ter superado toda dor através das palavras, com o uso de papel, caneta e computador.

" Minha filha, com  apenas 10 anos sofreu bullying na escola onde estudava. Um menino começou a chamar minha filha de jubão por causa de seu cabelo ser cheio, depois disso ela prendeu o cabelo para ir as aulas, não satisfeito o mesmo menino começou a chama-la de sherek. Minha filha, com uma enorme frustração, chegou um dia em casa e não quis mais voltar a escola.  E, sem ao menos me dizer o motivo, simplesmente se fechou em seu quarto por dois dias muito triste, sem se alimentar direito e chorando muito. Eu e meu esposo sem saber o que fazer chegamos a ir na escola e procurar a direção sem sucesso, pois nem a professora e as diretoras sabiam do ocorrido. Chegamos a pensar numa ajuda psicológica. Foi aí que, como escritora, tive a ideia de falar com ela se queria escrever sobre o que havia acontecido, nisso ela se levantou da cama e foi para o computador abriu o word e começou a escrever um conto que nomeou de 'A menina que se achava a mais feia do mundo'.  Foi ai que ela encontrou um meio de desabafo e praticamente exorcizou seu sofrimento, mudando completamente. Nesse mesmo dia já começou a se alimentar e falou para nós que estava se sentindo melhor. ", contou.